Gaivotas, sereias e gatos

Não fosse a tecnologia e lá estaria eu a morrer devagar, para dar tempo a quem chegasse ou adivinhasse o tal excesso de inquietação, estranho neste dia perpétuo de uma vida coerente apesar da alma tão amarrotada.
Danados soluços de bicho, sempre a farejar nas entrelinhas dos gestos, a ganhar confiança devagar, mesmo que pareça ter aceite um colo sem regatear muito até porque lhe faça falta acalentar um ninho. Inesperadas coleiras e fatais atilhos em que a voz do dono ecoa, quantas vezes prometendo harmonias tentadoras. E lá por parecem quase sempre capazes dos meneios de gajas boas, desconfio tanto do género. Se calhar, rejeito sons agudos e escamas afiadas, nesse espalhafato que a procura de domínio sempre mostra, mesmo embrulhada na ilusão da sedução.
Já a glória é toda outra coisa, é viver a pausa para um chá servido no convés irreal da nossa vida, é a cor do vinho a cheirar a sangue, apesar dos enjôos marítimos ou da náusea da carne morta. Será sempre um desafio de transcendência, um desejo de querer trocar as voltas ao destino e surpreender o espelho com uma careta futura. É querer partir em busca de um regresso a casa e deslumbrar-se na serenidade dos mitos redondos, vencidas as cavernas de todos os pudores.
Vivazes as folhas em torno soluçam e a cidade também. Outra gente arreganha o dente e, claro que o festim lá se promete, quase sempre a encobrir misérias ou receios. Ou apenas negação de um medo sujo.
E se “um duro desejo de durar”, como anunciava o anjo que guiava a mão de Paul Éluard, nos protegesse mais na audácia? Até porque aposto que a mesma curiosidade que se alega ter morto o gato deve ter salvo muitos outros.
Que estranha esta sms da Maria a dizer que a tia Helena foi para a Galiza sem se despedir de ninguém!? Nem de nós...
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